sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Por que, vó?




Anderson Santos

Quando crianças, temos a mania de querer saber de tudo e, quando questionados, falar o que pensamos ser o certo. Afinal de contas, é com o passar dos anos que ganhamos as barreiras sociais que nos impedem de dizer certas coisas que podem, mesmo sem querer, chatear alguém.

Lembro do neto da diretora do colégio onde estudava que, ao acompanhar uma missa, falou no alto dos seus três anos de idade: “o padre é cachaceiro, bebendo vinho no horário da missa!”. Os familiares reclamaram na hora, mas eu achei bastante perspicaz a frase do Lucas – e ri bastante depois.

Por coincidência, foi outro Lucas que me surpreendeu dia desses. Em pleno sábado de manhã, saio de casa para o trabalho e o vejo brincando com a avó na calçada ao lado. Desejei um bom dia duplo, o segundo acompanhado do nome da criança, que respondeu com um ar confuso.

A minha vizinha sempre explica: “O Anderson está indo pro trabalho, Lucas”. Só que desta vez o garoto de três anos e meio, na fase em que a criança pergunta sobre tudo, veio com uma pergunta daquelas que geraria crise entre filósofos: “Por quê?”.

Quem nunca parou para pensar em dias de extremo cansaço ou preguiça sobre o motivo de ter de trabalhar, sempre no mesmo horário, como um robô programado para executar as mesmas ações todos os dias? Para que raios temos que labutar para ganhar um dinheiro que mal podemos gastar com o que gostamos e queremos?

Se você é de uma classe sócio-econômica à margem da sociedade, sabe muito bem o que é ter de ficar horas e horas, até em condições subumanas, para conseguir alguns reais para as poucas refeições diárias da família. E faz isso agradecendo por ter um emprego. Se não o tiver, pede mais forças ao que quer que seja para poder ter o mesmo resultado no dia seguinte.

Se você é de classe média, vive com medo de perder o status social adquirido – mesmo que, na prática, isso não signifique tanto. Trabalha o quanto pode em salas com condicionadores de ar, tem stress, uma ou outra ameaça de ataque cardíaco e medo por onde anda, para não perder o que ganha com tanto “esforço”.

Prefiro escrever sobre seres normais. Pessoas ricas só servem como exemplo para que programas televisivos documentais façam matérias frequentes de como se pode enriquecer, bastando para isso apenas trabalhar. “Isto mesmo, você não deve trabalhar nada, por isso não é rico!”.

E o dinheiro serve para quê mesmo? Para ganhá-lo, você ocupa boa parte do seu tempo diário; nos seus horários de folga só pensa em descansar; e nunca tem o suficiente para atender as suas “necessidades” - já que outdoors e televisões vivem mostrando “aquele produto que revolucionará a sua vida”, dia após dia.

Lógico que o trabalho sempre foi e continua sendo uma questão de sobrevivência humana. O motivo pelo qual termos conseguido evoluir até o ponto atual e, quiçá, evoluiremos para formas sociais efetivamente avançadas. Porém, de qual trabalho estamos falando?

Há momento que o corpo e/ou a mente não aguentam tanto sacrifício, dão sinais de que algo tem que mudar, mas como? Geralmente se opta por um esforço maior hoje para no futuro poder desfrutar de uma vida tranqüila. Mas quem pode garantir que você chegará até este futuro?

Será que um dia seremos socialmente melhores para podermos responder tantas questões? Quem sabe num momento em que possamos fazer que a prática do trabalho sirva para atender às necessidades reais humanas e possibilitem um desenvolvimento igualitário. A curto prazo acho difícil, já que não dá sequer para responder a um questionamento de criança.

1 comentários:

VERINHA | 9 de fevereiro de 2010 08:30

É O MUNDO "MODERNO" Q FAZ COM Q SEJAMOS ESCRAVOS DO CAPITALISMO =/

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