quarta-feira, 1 de abril de 2009

finas letras







Coluna aberta a colaboradores que queiram expor suas letras artísticas. Você é poeta? contista? romancista? cronista? Então manda seus escritos pra Bula!

e-mail: [ coletivorevistabula@gmail.com ]
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|RESENHA
O essencial é invisível aos olhos
Josian Paulino Barbosa

Exilado nos Estados Unidos entre 1941 e 1943 durante a Segunda Guerra Mundial, o piloto de aviões Antoine de Saint-Exupéry teve a oportunidade de ver um grande sonho realizado. A publicação das duas primeiras edições de “O Pequeno Príncipe” sendo uma em inglês e outra em francês.

A maravilhosa fábula conta a história de um principezinho muito adorável que depois de sofrer uma decepção com sua rosa de estimação resolve partir de seu pequeno planeta, o B612, viajando pelo universo até chegar ao planeta terra, onde encontra entre outras personagens um piloto de avião que tinha caído no deserto.

O Pequeno Príncipe, assim como o autor-personagem Saint-Exupéry, tinham o pensamento em comum de que as pessoas grandes não conseguiam entender as crianças, já que, as pessoas grandes sempre estavam preocupadas com coisas sérias. Para o autor era quase impossível que algum adulto pudesse compreender a sabedoria de uma criança.

Numa linguagem simples e direta o livro é repleto de passagens que tocam o leitor profundamente como o encontro do Pequeno Príncipe com algumas personagens peculiares como: o rei que governava para si, o bêbado que bebia porque tinha vergonha de ser bêbado, o empresário que gastava o tempo contando estrelas que julgava possuir, o vaidoso, o acendedor de lampiões e o geógrafo que não conhecia sequer o próprio planeta! A cada encontro com tais pessoas o pequeno príncipe chegava sempre à mesma conclusão, a de que “as pessoas grandes são muito estranhas”.

Dotado de uma grande curiosidade, o que é bem comum às crianças, o principezinho nunca esquecia uma pergunta até que ela fosse respondida, porém, em compensação nunca respondia aquilo que lhe perguntavam com exceção da raposa, a qual lhe revelou um grande segredo que é o ponto chave do que o autor nos quer transmitir como um grande ensinamento: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

É uma obra que nos mostra o verdadeiro sentido de se valorizar as coisas mais simples da vida. Que questiona a arrogância das pessoas grandes que não tem tempo para entender as crianças. E que nos leva a refletir sobre as relações humanas no mundo de hoje e a falta de sentimentos nobres como o amor e o respeito pelos outros. O essencial é invisível aos olhos!

Antoine de Saint-Exupéry, portanto, não viveu o suficiente para ver um outro sonho realizado. Em 1944, quando fazia um vôo de reconhecimento na guerra foi abatido por um avião alemão e caiu no mar mediterrâneo, seu corpo nunca foi encontrado. Um ano após sua morte, Saint-Exupéry foi homenageado em sua terra natal com a publicação de "O Pequeno Príncipe" na França.

Saint–Exupéry como poucos, foi capaz de compreender o universo infantil em toda sua complexidade, tendo assim, nos presenteado com uma obra que até hoje emociona adultos e crianças em todas as partes do mundo.

* Josian Paulino é Relações Públicas e Produtor Cultural.


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|POEMA
Tinto seco
Luciana Fonseca


*Luciana Fonseca é sergipana, mas vive em Alagoas desde a sua infância.  Na arte, é escritora e artista plástica. Toda as formas e cores de Tinto Seco, além das palavras, são de sua autoria.

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|POEMA
Entrega desnuda
Railton Teixeira

Desnudamente seus adocicados lábios
Com tanta e tamanha brutal força
Nos meus por alguns longos e eternos
Instantes seguraram forçosamente.

Beijos recheados com seus lindos
E mirabolantes cabelos lisos
Deram a sensação e o sabor
Dos quão sensuais incumbidos segredos.

Delirantes na força do desejo
De cada vez mais possuir e ter
Rolamos na praia de prazer.

E pouco a pouco entregues a mercê
De corpo e alma num profundo silêncio,
Quebrado pelos suspiros nos meus ouvidos:

Eu te amo!!!

*Ranilton Teixeira é estudante de Jornalismo e Poeta Popular de Alagoas, autor de algumas literaturas de cordeis e blogueiro. Escreve aqui e aqui.

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|CONTO
Manual de como manusear
Nilton Resende

Sê breve, até ínfimo. E nunca mostres teu olhar.

Em mostrando-o, pouco antes pouse-se ele noutra cousa, algo sólida, algo fria; algum móvel pelo quarto, ou um naco dalgum giz. Deixa um pedaço de branco sobre o móvel, esse aparato seco, semimudo, desfazente. Mas que não se mire ele se se buscam relações com aquilo do entremeio, o entre tu e o teu outro; nunca isso. Que se o olhe como cousa, fria e seca, fria e breve. Que se tenha isso apenas. Mas se é bastante extremo, bem sensível o teu agir, remove cada pedaço desse pequeno objeto, tão miúdo e alarmante, que pode dizer do futuro de nadas que está por vir. Olha atento para o móvel, mas cuida que sob ele não haja um velho tênis, par de meias ou afim, esse algo que talvez te dê arroubos de memória, um calo sob o solado, uma nesga de pele ao lado da unha ou o desagrado delicioso do cheiro que ali se evola em sins. Se tais sutis minudências se assomam gritando à mente, pousa o teu olhar em nada antes de mirar o outro. Mas que inspires o ar bem alto, sem dar a perceber, é claro. Inspira o mundo bem farto; e então, bem expiroso, livra-te de qualquer traço de olho apiedoso ou doutro, um suplicante. Mira como te mira um de metal artefato, reluzente e espelhado, para que o outro se veja, mas não saiba de teu dentro, dos desvãos dessa tualma, posto que águas lubricosas mais afastam que animam do amante qualquer ato de entrega. Elas mostram-se qual ondas que se escarpam e se jogam como onças mui prestosas de engolir o incauto homem. Logo, digo que te guardes de expostas esmerezas, de cantares sonhos fartos. Se é onda de ressaca tua sede, quebra logo sua crista e engole esse homem que passeia a teu largo. E encharca suas roupas e lambe a língua na pele e salga a boca e seus dentes. Mata-o; faz que ele, em ingênuo acordar, nem em sonho veja a onça, mas apenas sua sombra, cambiante e andarosa, resvalosa e cantante. E essa onça, toda noite, vai entrar pelo seu quarto; um súcubo em afagos transformado. Sê onça, sê onda e escarpa. Mas que o olho nunca diga que no fundo de tualma, invés d’onça, mora um lírio e seu veludo. E que as pétalas, trementes, se maceram se o tocam — se tocam a pele do outro, que se afoga nessa praia, breve onda de quem finge, por saber que se o lírio não é onça faz-se em nada. E então seja sereioso o seu canto, mais rufares que algum silvo. Seja forte, seja extremo, seja farpa. E se tudo isso dito é debalde, por ser úmido o teu rosto se se vê de frente ao outro; se ele treme só em pensar nalgum toque; se a boca freme toda só de ver os outros lábios; se um riso faz-se largo, forte, terno, involuntário; se o ouvido ouve pêlos sob brisas; se o corpo do teu outro só exala cousas doudas de gostosas; e tualma, só em vê-lo, muito e toda se alarga — corre aos montes, que é morte essa onda que se dobra caudalosa. E percebes o engano de achares que era o outro estendido sob o corpo da água — que o mar, que tu fizeste, sobre ele mesmo é vaga. E se afoga nele, sempre, todo o que incauto nada: vela, proa, leme, lume, todo propício aparato; braço e perna e nado é nada. Mas não fujas dessa praia. E nem sejas breve, ou ínfimo. Nem escondas teu olhar. Melhor morrer sob as ondas do que, sendo tu tão peixe, não teres provado o mar.

*Nilton Resende é alagoano e se dedica de corpo e alma à literatura e ao teatro. "Manual de como manusear" estará presente em seu mais novo livro, Diabolô, premiado na edição 2009 do Prêmio LEGO de Literatura, na categoria contos. O livro está previsto para 2010.

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|CONTO
Ele fez tudo o que pode
Ben-Hur Bernard

Esta é a cena:

Pisando na lama, descalço, restos de "baseados". Ele estava moído. Sofreu na noite anterior. Foi uma noite de risos e muito suor. Mas o que se seguiu parecia tão incerto quanto [...]. A venda, que antes tapava nos olhos, agora estava amarrando todo o corpo, pois ele cambaleava. Não só cigarros, mas garrafas, copos, camisinhas e mais lama. Para sair do buraco onde se encontrava, ele teve que se curvar e tatear a terra úmida, "engatinhar", "ficar de quatro".

Quem o conhecia, não o reconheceria. Estava ele com a calça caindo, um sol escaldante e os tênis brancos, que não combinavam com toda aquela folia, pendurados pelos cadarços. Vagou só.

Ele queria voltar, mas parecia distante. Ele queria gritar para o mundo, mas parecia rouco. Ele queria sorrir, mas os dentes estavam trêmulos. Mas como o buraco parecia convidativo, voltou, mesmo que a distância o impedisse. Não se arrependeu, por fim.

Mas, o que o mundo o reserva agora parece maior e mais quente que aquele buraco tão confortável e acolhedor. "Onde comem dois, comem três!". Se pudesse, ele permaneceria na lama, mesmo com tênis brancos. Mas o ônibus era inimigo dele e inimigo de uma noite inesquecível.

Ele pegou um guardanapo e, com uma caneta de cor marron, escreveu:


Helicoidal

Tudo gira
converge
se ergue
bate
volta
insiste
Tudo doi
tudo passa
tudo gira
e tudo goza
Mas, assim como a forma helicoidal
tudo vai
mas não volta

Ele lamentou que "não volta".

*Ben-Hur Bernard é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas - Ufal.

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|CONTO
Carta para você
Cynthia Ferreira

Crescer é o único remédio. Crescer às vezes implica em avaliar aquilo que se deixou passar. E tenho guardada a prova desse descuido: uma carta. Ainda bem que a guardei, até hoje ela me serve de lição. O homem que a escreveu foi ousado, sábio com as palavras. Ele despiu-se para mim em algumas poucas linhas.

Na carta não há erros de português. E pensar que dia desses sofri uma desilusão ortográfica ao ver alguém escrever “agente”. Ele julgou a si mesmo, sabia do risco que estava a correr por se declarar a alguém que pouco conhecia. Mesmo assim ele o fez, arriscou tudo e nada conseguiu. Sua remetente precisava crescer.

Então o tempo passou. E cresci o suficiente para reconhecer o valor daquela carta. Linda. Lá encontro devaneios sobre a minha voz, o meu olhar. Coisas em mim admiradas por alguém que nem imagina os meus inúmeros defeitos. Coisas em mim observadas por alguém que só queria me olhar mais de perto.

Mas, infelizmente, eu tive que crescer.

Ele se envolveu e eu continuei errante, como sempre fui. Pouco nos falamos e, recentemente, nos reencontramos em uma festa qualquer. Nada aconteceu e nem precisava, os olhares consumiam todos os atos físicos possíveis. Naquela noite, rimos juntos e, de forma embriagada, porém consciente, falei tudo o que ele queria ter ouvido tempos atrás.

E aqui, registro um dos meus erros. E que incrível seria ter a chance de repará-lo. Seria pedir demais? Um dia saberei. Por enquanto, resta admitir que nada irá superar a beleza do que me foi dito por escrito.

Pronto, agora estamos quites.

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|CONTO
Ceres e as uvas
Isaac Moraes

Ela chegou como sempre. Invisível.

Na realidade, durante o cotidiano, nunca reparava em si mesma. Era como se não existisse nos outros ou na realidade e percepção dos outros. Não se sentia enquanto integrante de algo.

Quando fechou a porta do quarto atrás de si teve a sensação de que alguma grande mudança aconteceria, mas logo afastou esse pensamento absurdo da mente.

Ceres deitou-se, pôs o mp3 player nos ouvidos adornados por brincos discretos. A música corre suave e incolor, como ela. Começou a mordiscar umas uvas que apanhara na cozinha antes de subir e passar despercebida pela velha empregada, que catava o feijão para o almoço e cantarolava uma música triste e dolorida na sua voz exagerada:

“Diga que já não me quer... Negue... Que me pertenceu...”.

Odiava aquilo. A música cafona e o fato de não ter sido percebida quando passou. Nem por ela e nem por sua mãe, que vê televisão sentada na poltrona esperando seu pai chegar como sempre, vigiando seu irmão mais novo pela janela, como sempre, e esperando o telefonema de sua irmã mais velha, como sempre. Ceres ia ficando para depois, e sua vida era cheia de “como sempre”.

O depois - esse fantasma esfumaçado e cinza - é o lar dos que não deviam nascer, ou nasceram quando algo tá sobrando. E Ceres sempre esteve sobrando. Até agora fora avulsa. Nem a mais velha, nem a mais nova, era simplesmente a do meio, sem denominação, aquela para quem os planos familiares eram médios.

Deitou-se na cama e começou a ouvir Flowers in Your Hair, no segundo andar da casa onde morava e onde ficava seu quarto. Optara por ele quando se mudaram para essa residência. Ninguém nunca discutia muito seus desejos. Gostava desse som antigo, sentia-se como uma tiete dos anos 60, naquele clima de paz e amor, de intensidade e liberação sexual. Algo tão diverso do que sempre fora, calma, branca, sem vida.

Ceres era muito branca, nunca fora como os outros membros da sua família, sempre tão vivos, dinâmicos. Ela era pálida, triste, calada. Isso a deixava transparente, às vezes, até mesmo para sua única amiga no colégio, Gláucia. Amiga seria um exagero. Ceres era a única que tinha paciência de ouvir as histórias de Gláucia, sempre tão fantasiosas. Às vezes nem ouvia, simplesmente olhava para Gláucia com um olhar de nada, que a atravessava. Mas Gláucia era tão empolgada em suas histórias que nem percebia.

Continuou a mastigar as uvas. Cada uma deixava um gosto de quase vinho na sua boca, de vinho não feito ou não acontecido que a agradava. Para ela, era um vinho todo especial, pois nunca seria bebido por ninguém a não ser por ela, que o bebia mesmo antes dele acontecer. Era assim que ela percebia as coisas: antes de acontecidas. Antecipava-se aos outros nessas ninharias de acontecimentos, idealizados por ela, como uma única vantagem. Esse vinho que bebia era sua vantagem sobre todos, era dela, só dela.

Queria ser uma semente, como essas que mastiga junto com as uvas. Na verdade, ela mastiga videiras inteiras, videiras não acontecidas, como o vinho. Imaginava-se semente de algo que ainda não germinara, uma semente infértil, improdutiva. Mas, por que não germinar? Por que ter que depender que alguém a estimule? Que sua vida, sua insípida vida, tenha um espelho para refletir as ordens ou a imagem de alguém? Ela poderia simplesmente decidir viver e germinar, florir, sozinha. Nem que por alguns segundos ela quisesse sentir-se ser, quisesse ser uma massa de átomos extravagante como os outros são, cheia de ímpetos e vontades.

Ficava sempre a esperar por algo ou alguém que nunca chegou, e que iria colocar nela o que faltava para que fosse parte desse grande brinquedo que é o universo. Cansou-se de esperar. Resolveu que iria germinar, crescer, florir, nem que disso dependesse toda uma existência no anonimato. Por alguns segundos ou até mesmo minutos ela seria, seria e teria um lugar no pensamento e na vida de alguém. Acabariam de uma vez por todas a transparência, os meios planos familiares e a sua insensibilidade, deixaria de ser oca, um corpo oco, uma alma oca. Encontraria um sentido, um início onde os outros só veem tristeza.

Levantou-se, ainda com os fones nos ouvidos e umas poucas uvas nas mãos, e ficou em pé sentindo o sangue voltar a correr pela perna que ficara dobrada anormalmente enquanto estava deitada. Sentiu a dor do formigamento e as forças voltando a lhe dar condições para caminhar. Começou a andar até a janela. Chegou, parou e ficou observando as pessoas na rua. Já deviam ser duas horas da tarde, pois o movimento era grande. A banca de revistas na praça que ficava em frente à sua casa estava aberta. Os vendedores de sorvete perambulavam, meninos correndo e pessoas indo para algum lugar.

Sentiu um raio de sol queimar-lhe as mãos no parapeito. Olhou pra cima para encará-lo quando observou um casulo que estava pendurado no teto. Surpresa. Ele se remexia. Medo. Ceres parou com a respiração ofegante. Sentiu medo não sabia de quê. Mas esse acontecimento desconhecido lhe dava um arrepio e uma angústia. Tratava-se de um parto, natural. A natureza oferecia-se nesse ato para ela da forma mais bela que poderia ser. Sentiu-se lisonjeada por presenciar momento tão solene. Silêncio! Permaneceu em silêncio. Nesse momento queria que o mundo parasse em respeito a esse momento de transição, de nascimento, que presenciava. Mas o mundo não pararia.

O casulo rompeu-se. Ela sentiu uma dor no meio das pernas e pôs a mão onde nunca pusera antes com tanta intimidade ao longo dos seus 17 anos. Era como se também estivesse em trabalho de parto junto com a natureza. Estava parindo a si, a verdadeira Ceres, que permaneceu tanto tempo apagada, escondida, quase invisível.

Logo duas asas azuis saíam do casulo, contrastando, coloridas e brilhantes, com a cor sem vida da casca. Uma borboleta azul, enorme, acabava de nascer. A vida, pulsando maravilhosa diante dos seus olhos estáticos lhe dava uma emoção e uma vontade de renascer e começar tudo de novo. Mas na forma de borboleta.

A borboleta saiu voando baixo, logo ganhou altura e sumiu entre as árvores que ficavam na praça do outro lado da rua. Ceres acompanhou com o olhar cada momento desse voo e sentia cada vez mais aumentar a vontade de ser uma borboleta. Começou a subir na grade da janela e a sentir o vento no rosto. Olhou pra baixo, viu o começo da sua transformação a fazer efeito nas outras pessoas que começavam a olhar pra cima. Tantas vezes veio até essa janela em diversos momentos do seu dia e nunca fora notada.

O vento balançava seus cabelos lisos batendo-lhes no rosto. E ela sentia cada momento da sua mutação, sentia as asas crescerem nas costas, grandes asas azuis como a borboleta que há pouco presenciara nascer. Os fones nos ouvidos tocavam The End, dos Beatles. O fim, o início de tudo. Ceres estava cada vez mais eufórica com a idéia de renascimento que se apresentava como uma realidade alternativa.

Voou.

Embaixo, suas mãos esmagavam as uvas e alguém tirou os fones dos seus ouvidos, a tempo de ouvir o término da canção:

“And in the end, the love you take, is equal to the love you make”

“E no final, o amor que você toma é igual ao amor que você causa...”.

Ceres, finalmente, tornou-se.


*Isaac Moraes é alagoano, concluinte do curso de Comunicação Social e leitor do cronista Rubem Braga.

7 comentários:

Nanda | 22 de novembro de 2009 00:31

Esqueceu de acrescentar que Isaac Moraes é um puta de um cronista que merece todas as uvas e todas as sementes por mais um trabalho que me fez estremecer. Parabéns!

Tom do Junco | 22 de novembro de 2009 22:34

É. Digamos que ele escreve bem, apesar da lentidão, mas nada que se faça "estremecer".

Bruno MGR | 1 de dezembro de 2009 14:35

Lindo, lindo, Cynthia. Quando você diz: "Lá encontro devaneis sobre a minha voz", só me lembro das vezes em que te vi cantar.
Há de se ter devaneios, mesmo!

Luciana | 14 de dezembro de 2009 08:54

Inescrupulosamente louco e delirante, mas poético! Gosto das frases curtas e a combinação tipológica na narrativa textual. Parabéns Bernard.

Luciana | 14 de dezembro de 2009 10:03

O tema contribui à forma escrita, explorando o uso da 1ª pessoa e o fluxo da linguagem. Continue "escrevendo cartas", quem sabe em seu final resultará em um livro. Parabéns.

Bruno Rodrigues | 30 de dezembro de 2009 01:58

Gostei demais dos textos do Nilton e do Bernard. Este eu não conhecia e gostei muito! espero ler mais textos dele por aqui.

Salomão Miranda | 9 de fevereiro de 2010 23:57

Poxa, que delícia de conto! Isaac, parabéns! O título é muito bonito, pode ser capa de livro, nome de música, peça de teatro...

"Ceres e as uvas" parece com cenas de Tarantino, onde o sangue e a morte não impedem a música alegre ao fundo. Bem assim, neste seu conto, nem parece que há uma morte. Ou, parecendo, nem parece que ela é ruim. A morte, em "Ceres e as uvas", é sublime!

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