domingo, 15 de novembro de 2009

Rio 2016: qual o lado da moeda?




Anderson Santos

Outubro foi um mês especial para a cidade do Rio de Janeiro graças à sua escolha como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, após três tentativas fracassadas. Antes e depois daquele dia dois, as discussões acaloradas formavam dois grupos: os que comemoraram com samba e muitas lágrimas a escolha e os que balançaram a cabeça negativamente. Todos brasileiros.

Os jornais ainda mostravam a emoção de pessoas como Pelé e o presidente Lula, enquanto as discussões em páginas da Internet apareciam em progressão geométrica. Na TV, as grandes emissoras centravam as discussões para o legado esportivo e estrutural que um evento deste nível poderia trazer e os cuidados com a quantidade de investimentos a serem feitos, mostrando os exemplos olímpicos anteriores.

Poucos foram os lugares que abriram espaço para os críticos. Um deles foi o programa Observatório da Imprensa do dia 06, apresentado na TV Brasil pelo experiente Alberto Dines, que trouxe um dos maiores críticos às atuais administrações do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF): Juca Kfouri. Porém, a discussão foi centrada na obrigação da imprensa nacional em fiscalizar cada passo do processo.

Juca colocou como principal crítica o fato de, no Brasil, o esporte não ser levado em consideração enquanto algo de prevenção e de saúde. Projetos de formação de jovens atletas são poucos, menos ainda com apoio do poder público.

Além disso, o tema corrupção também foi pauta. Afinal, para a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, na mesma cidade e com os mesmos organizadores da campanha para a sede olímpica, o orçamento original de R$ 400 milhões foi superado com gastos totais de R$ 4 BILHÕES. Imagine uma diferença assim para algo que parte da casa de R$ 30 bilhões!



VIOLÊNCIA - Em meio às discussões de que “tem que ser brasileiro, basta fiscalizar” ou de que a Olimpíada aqui seria mais uma fonte de joguetes políticos e desvio de dinheiro público, a violência serviu como mais um argumento para os críticos. O Rio de Janeiro viveu um outubro vermelho, com o sangue derramado em seus morros.

Desde o sábado 17 - quando traficantes derrubaram um helicóptero da Polícia no Morro dos Macacos, matando três policiais - que não param de surgir notícias sobre mortes. Era claro o caráter de vingança que aquele ato, que foi iniciado com uma briga entre gangues rivais, geraria.

As operações baseadas na “lógica do extermínio” subiram aos morros sem a preocupação de que estavam matando um bandido ou um trabalhador. Na dúvida, colocava-se um pouco de droga e/ou uma arma próxima ao corpo, encharcado de sangue e lágrimas dos seus familiares. Muitos foram e são os casos que ocorrem diariamente e que não são noticiados.

ESTADO REPRESSOR - Em meio a mais uma batalha da guerra civil carioca, o presidente do País resolve tomar a decisão de aumentar a quantidade de dinheiro a ser investida em armas para o Rio. Isso porque Ele é de origem popular, mas parece que não conhece a vida de uma comunidade.

Enquanto o Estado só aparece para segurar armas e causar o terror com o “Caveirão”, os traficantes criam uma comunidade com rádio própria, telefone, banda larga para navegação na Internet e ajuda a quem precisa – desde que não tenha dívidas com o grupo que domina a região. Quem é mais perigoso?

Para se ter uma ideia, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro contratou uma pesquisa e atestou que policiais civis e militares já mataram, oficialmente, 10.217 pessoas nos últimos 11 anos e 7 meses. Uma média de 2,4 mortos por dia.

Chegou-se a tal valor com muita ajuda de uma premiação criada pelo governador Marcello Alencar (PSDB) em 1995, que dava gratificações financeiras para atos de “bravura” dos policiais.



PARA ESTRANGEIRO VER - Os jornais internacionais rapidamente associaram as mortes ligadas ao tráfico à possível falta de segurança nos Jogos de 2016 – como se já não tivesse ocorrido com “eles” antes.

Para refutar tal argumento, utilizamos o exemplo do Pan-Americano de 2007, onde poucos casos, em especial com turistas, foram noticiados. Porém, isso se deu durante o curto período dos Jogos e à força do isolamento das comunidades. E não é tão difícil encontrar fontes que mostram este fato.

Dias antes da realização do Pan do Rio, um grupo de brasileiros da Rede contra a violência chegou a protestar em praças públicas europeias como forma de denunciar o que ocorria aqui. Com charge do cartunista Carlos Latuff, na faixa havia a seguinte frase: “Sol e lucros para os ricos, violência contra os pobres”.

Em texto publicado no dia 02 de agosto de 2007, pouco depois do término do evento esportivo, Sandra Carvalho e Fernando Delgado, da organização defensora dos direitos humanos “Centro de Justiça Global”, afirmaram:

“Em vez de contagem de medalhas, estamos contando corpos. Infelizmente, parece que o Rio 2007 será lembrado mais pelos seus mortos do que pelos jogos. As mesmas forças policiais que pretendem dar segurança ao Pan são responsáveis por invasões de comunidades, e já levaram à morte, no mínimo, 44 pessoas no Complexo do Alemão: são os mortos pan-americanos. No Brasil, o chamado espírito olímpico é fatal”.

Se isso ocorreu no sétimo evento esportivo do mundo, pensem no que pode acontecer durante o mês da Copa do Mundo de 2014 e as duas semanas dos Jogos Olímpicos de 2016, dois dos maiores eventos esportivos do planeta, para mostrar que o Rio de Janeiro pode ser “seguro”.

Enquanto turistas virão para cá para ver as super-máquinas humanas em ação e a maioria de nós não terá como pagar as entradas da maioria dos eventos, as comunidades cariocas estarão sendo vigiadas e, mais uma vez, separadas do resto da Terra como fossem um lugar com uma doença contagiosa: a violência.

Festa ou repressão, qual o lado da moeda Rio 2016?

2 comentários:

Stéfano Bozza | 18 de dezembro de 2009 19:35

Sensacional! Ótimo texto.
Já manifestei diversas vezes a opinião que tenho do tema, porém será algo a ser bastante debatido, pois há muito chão até 2016.
Sou contra as Olimpíadas brasileiras. Um dos argumentos de quem é a favor é de que podem vir a trazer mudanças positivas, citando como exemplo Barcelona 92. OK, peguemos como exemplo o Pan em 2007. Durante o evento, tudo certo. E depois que acabou? Tudo volta ao normal.
Nem vou entrar na parte da corrupção, pois isso todos sabem e estão cansados de repetir. Acho até que seria muito bom se acontecesse na Olimpíada um marco de mudanças, mas não as vejo. O que vejo, no máximo, é um investimento para um mês sem problemas. Acabando, volta tudo ao normal.
Não seria melhor usar o dinheiro, ao invés de um reforma no Maraca, para resolver problemas tais como segurança, desigualdade social, pobreza, falta de alimentação etc?
Aí vai de cada um. Acredito que existem prioridades, e certamente a melhora na segurança pública deve ser prioritária em relação á construção de um campo de softbol.
Enfim, esse é um tema pra lá de polêmico e que ainda vai gerar muita discussão até 2016.
Anderson, parabéns pelo texto, vc escreve muito.

Lu Castro | 18 de dezembro de 2009 22:09

Sabe o que é pior? É que desde que o mundo é mundo é assim. Mais uma vez vamos pagar muito caro por um espetáculo que não será nosso e o problema não será resolvido nem antes, nem depois de qualquer evento. Um exemplo bem recente da falta de foco das autoridades? A perda de mando do Coxa. Enquanto isso, pelo menos 8 dos marginais que invadiram o campo do Couto Pereira, já foram liberados. É pra ter esperança? Sinceramente, nos meus 38 anos de vida, aprendi que pra mudar, temos que começar pela educação dos nossos. Quem sabe não é por ai, e atacarmos vigorosamente qq tipo de favorecimento, onde quer que estejamos.
Grande abraço Anderson, show de texto!

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