domingo, 20 de dezembro de 2009

Um canto de militância e beleza


Há mais de um ano, a saudosa cantora Mercedes Sosa fazia show em Maceió, revisitando uma trajetória de emoção e luta em seus mais de 50 anos de carreira



Isaac Moraes

Em outubro de 2009 nos deixou uma das mais expressivas vozes da América Latina. A cantora Mercedes Sosa, com seus cabelos negros, sua voz e olhar firmes, se foi, deixando para sempre seu nome gravado na memória da música mundial. Não só pela sua postura enquanto artista, mas também como ser humano, Mercedes se solidarizava com a causa dos cativos e humildes, e usava sua arte para expressar e denunciar a dor de seu povo. Tal atitude lhe rendeu o título de “a voz do silenciados”.

Haydée Mercedes Sosa nasceu em 1935, em San Miguel de Tucumán, no noroeste da Argentina e sempre compreendeu o que cantou. Deve ser por isso que em seus mais de 50 anos de uma carreira enraizada pela devoção ao seu dom e suas concepções políticas, conseguiu transmitir com fidelidade o espírito de uma geração sofrida pelas atrocidades de guerras e perseguições ditatoriais. Pertencente a uma época de brilho ímpar, desenvolveu em sua voz, num misto de dor e plenitude, as mais profundas composições e canções, que ficaram imortalizadas no canto dessa argentina de 73 anos que se apresentou no dia 26 de novembro de 2008, no Teatro Gustavo Leite – Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso.

A expressão de Mercedes Sosa ao interpretar músicas que falam de dor, revelava uma capacidade singular de transmitir a essência das palavras e sentimentos contidos nas letras das “canções de protesto” como eram conhecidas. “La Negra”, alcunha que recebeu em razão de seus longos cabelos negros e da tonalidade de sua pele, sabia bem dosar a entonação de cada palavra, enfatizar seu significado e cumprir toda função da mensagem contida nas letras de compositores como a chilena Violeta Parra, autora das famosas “Gracias A La Vida” e “Volver a Los 17”, e também de brasileiros como Milton Nascimento, Raimundo Fagner e Caetano Veloso.

Para onde levava sua música, Mercedes sempre trazia consigo sua “caja”, um bumbo de som cavo, característico das regiões andinas e que tocava com primor. Militante de esquerda, considerou-se uma amante da paz, mas ainda sofria ao lembrar de tantas mortes causadas pelo autoritarismo dos regimes militares latino-americanos: "Os militares instauraram uma democracia e assassinaram inocentes. Esses mortos ainda seguem doendo. Agora que as coisas mudaram estão presos em suas casas. Por isso não se deve sequer pensar em matá-los, devem ficar confinados em seus lares sem poder sair nem para ir à missa".

Sosa veio diversas vezes ao Brasil, uma delas praticamente exilada, onde cantou com Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso. Com os dois últimos e mais Gilberto Gil fez parte do Nueva Cancion, um movimento musical latino-americano dos anos 60 com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas, que refletia a preocupação política dos artistas em relação ao imperialismo norte-americano, o consumismo e as desigualdades sociais do mundo como um todo, mas principalmente na América Latina. Em seu país, a cantora defendeu até os últimos momentos, o governo da então presidente Cristina Kirchner, a quem considerava uma pessoa culta, nobre e humana.

A artista revelou, em março do ano passado em entrevista ao jornal uruguaio La República, que o Brasil foi o país que mais a ajudou no exílio, destacando também Espanha, Uruguai e França. No início da turnê, indagada se pretendia aposentar-se, foi enfática: “De jeito nenhum, ainda vou cantar na Europa e quero voltar ao Brasil muitas vezes."

Infelizmente, nós não tivemos o privilégio de tê-la novamente em nosso País e no nosso Estado, mas fica a saudade e a lembrança dessa inesquecível artista, que conseguia, com seu canto, libertar os que a ouviam da pior prisão que existe: a da ignorância em relação à liberdade de pensamento e de expressão.

1 comentários:

Anônimo | 22 de dezembro de 2009 23:53

Parabéns pela produção Isaac! Bom conhecer mais sobre Mercedez Sosa, procurarei algo dela.
Grato,
Udson Pinheiro

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