(Djavan canta em minhas caixas de som) (atualmente, não sou bom anfitrião quando quem entra neste quarto é persona-non-grata) (já fui mais popular, mas meu nível intelectual não me permite bater papo com quem só tem a habilidade para falar das mulheres boas ou do campeonato brasileiro) (meu vizinho escuta música eletrônica em sua vertente mais xula) (o outro vizinho, graças a Mozart, é estudante de licenciatura em música e sempre escuto seus estudos na flauta e as músicas clássicas que ele escolhe)
A Residência
O vigia acorda ao ouvir os primeiros roncares de ônibus vindos da Praia da Avenida e do Hiper Bompreço Buarque de Macedo. Na Praça Sinimbu, no centro de Maceió, a maior cidade de Alagoas, os ônibus param em três pontos distintos. Às cinco da manhã nosso vigia sobressaltou-se ao ouvir a linha Benedito Bentes/Centro. Estava dormindo sentado numa cadeira de revestimento azul, dentro da parte traseira da Residência Universitária Alagoana.
A RUA, como é conhecida a casa, é um casarão de dois pavimentos, onde vivem aproximadamente cem estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). (Ah, se essas paredes falassem). No Centro de Encontro Universitário (CEU), há um grande refeitório, uma cozinha e um vão que serve para ensaios de peças de teatro, espetáculos de dança, festas e para os próprios moradores estudarem.
São servidas as três refeições todos os dias. De segunda a sexta quem tem compromissos no Campus A.C. Simões não almoça na Residência Universitária. Da mesma forma, há aqueles que almoçam na casa, mas jantam na Ufal (como é chamado o campus A.C. Simões, a despeito de a própria residência também fazer parte da universidade).
Um pequeno jardim serve de entrada para a primeira sala, onde fica um vigilante e para onde moradores às vezes vão bater papo (alguns gastam várias horas de seu dia ali). Às vezes o vigilante, que alguns já chamaram de “dormilantes”, saem de seu posto para ir ao CEU pegar a refeição. Assim, um gatuno tem passe livre para adentrar na casa.
A Casa possui quartos onde dois, três ou quatro estudantes moram. Em quarto de menina, só mora menina. O mesmo vale para os meninos.
(Ouço passos de gente descendo as escadas em direção à recepção. Parece querer mostrar que está descendo. A discrição é atributo de poucos) (Meus dois companheiros de quarto agora dormem. Um é apaixonado por dentes e o outro está atolado de provas do curso de educação física) (Olho para o meu prato sujo de feijoada)
Os estudantes
Há pessoas cultas, filisteus, conservadoras, revolucionárias, patricinhas, atrizes, musicistas, idiotas, antipáticas, nervosas, inconvenientes, azuretadas, calmas, babacas, irresponsáveis. Há quem estude muito. Para isto utiliza-se a sala de estudos, local que se há algum tempo era abafado e sem privacidade, agora possui condicionador de ar e cabines para estudo individual.
A Casa abriga meninos e meninas. Para um país hipócrita como este, chama a atenção. Afinal de contas a minoria dos pais e mães permitem que suas filhinhas donzelas vão viver com machos entrando na idade adulta, cheios de amor pra dar. Na realidade, nem sei se os pais realmente permitem isto ou são forçados pelas condições econômicas, já que se não fosse pela Residência seus rebentos não teriam onde morar na capital. Acredito que a pressão socioeconômica fala mais alto.
Aqui estão estudantes de variados cursos superiores. Letras, Jornalismo, Relações Públicas, Filosofia, Serviço Social, Arquitetura, Odontologia, Pedagogia, Dança, Música, História, Economia, Geografia, Engenharia Química, Física, Meteorologia, Agronomia, Matemática, Administração, Educação Física, Direito, Farmácia, Nutrição,...
Curiosamente, não há sequer um estudante de Medicina. Em sua maioria, quem passa no vestibular de Medicina estudou nas melhores escolas e pode pagar por aulas extras, cursos e professores particulares ou de matérias isoladas. Para entrar na Residência é preciso mostrar que não se tem condições de morar em outro local. Todos os anos são selecionados alunos para entrar aqui. Quem faz o julgamento de quem merece são as assistentes sociais da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, órgão da máquina burocrática da Ufal.
Vez ou outra há queixas de objetos desaparecidos. Já sumiu um monitor de computador do meu quarto. Era de um estudante de Ciências Sociais, que ainda não terminara de pagar as prestações do produto. Já furtaram aparelho de celular de um garoto que estuda Serviço Social. Já sumiram baldes que servem para aparar a água do ar-condicionado. Mas os furtos não parecem ser privilégio da Residência. Quem vive no Brasil sabe disso.
De tempos em tempos surgem movimentos que agregam pessoas com afinidades. Assim nasceram o UVAS (grupo de homossexuais e simpatizantes), a Banda Penteios de Gato (para tocar forró e tomar cachaça) e o COCAL (Comunidade Cética de Alagoas).
Há homens homossexuais assumidos e escondidos. (Ah, se essas paredes falassem...). Se há lesbianismo não é tão expresso como no caso masculino. Há ateus, católicos – que vão à igreja todos os domingos -, evangélicos – inclusive da Igreja Universal do Reino de Deus –, agnósticos e bruxas.
Eu, que estudo Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, já estou morando no terceiro quarto. Já morei no 202, no 205 e agora vivo no 208.
Os conflitos
Em época de férias ou feriado esta casa se transforma em algo menos sufocante, visto que muita gente viaja para visitar seus familiares. Conviver não é tarefa fácil. Quartos individuais ou pelo menos quartos isolados acusticamente não cairiam mal. Para quem tem sono leve, espere ficar com muito sono e a horda baixar seu volume. Dia de quarta (dia de jogo na “Rede Bobo”) nem pense em dormir antes da meia-noite. Isso é luxo. Quem não se preocupa em invadir o espaço do outro entra no quarto do outro, deita em qualquer cama e ao ver o dono do colchão não dá satisfações.
Numa pequena sala, agora com condicionador de ar, há alguns computadores onde se pode olhar o Orkut e digitar trabalhos. Sítios eletrônicos pornográficos são constantemente acessados, danificando as máquinas com vírus. Certo rapaz foi acusado por uma moça de olhar agressivamente para ela e se masturbar.
Conviver não é uma tarefa fácil. A moça de Arquitetura estava dormindo tranquilamente quando uma das moradoras do quarto veio de uma festa com amigos e empezaram a degustar a Cannabis. Faço a pergunta: alguém quer morar aqui? (risos)
Um rapaz queria ter momentos de intimidade com uma moça não moradora da casa. Pediu ao companheiro de quarto para se ausentar. Ao que este se negou, sobrou violência literal. Resultado: ossos quebrados e uma assembléia na qual o agressor foi condenado a se ausentar da casa por trinta dias.
Dia desses soube de um rapaz, amigo de uma moradora, que, ao voltar de uma festa, urinou na cama de uma moça que estava dormindo...
Uma moça não quis aceitar outra no quarto porque ela nasceu com a pele escura...
A cada segundo, esta casa fervilha de pequenos, médios ou grandes conflitos. Também pudera. São 100 pessoas! Gente é assim mesmo. Cada um teve uma criação diferente, viveu em lugares diferentes, estudam cursos diferentes, tem sonhos diferentes.



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