sexta-feira, 12 de março de 2010

A Residência Universitária Alagoana



Salomão Miranda

(Djavan canta em minhas caixas de som) (atualmente, não sou bom anfitrião quando quem entra neste quarto é persona-non-grata) (já fui mais popular, mas meu nível intelectual não me permite bater papo com quem só tem a habilidade para falar das mulheres boas ou do campeonato brasileiro) (meu vizinho escuta música eletrônica em sua vertente mais xula) (o outro vizinho, graças a Mozart, é estudante de licenciatura em música e sempre escuto seus estudos na flauta e as músicas clássicas que ele escolhe)

A Residência

O vigia acorda ao ouvir os primeiros roncares de ônibus vindos da Praia da Avenida e do Hiper Bompreço Buarque de Macedo. Na Praça Sinimbu, no centro de Maceió, a maior cidade de Alagoas, os ônibus param em três pontos distintos. Às cinco da manhã nosso vigia sobressaltou-se ao ouvir a linha Benedito Bentes/Centro. Estava dormindo sentado numa cadeira de revestimento azul, dentro da parte traseira da Residência Universitária Alagoana.

A RUA, como é conhecida a casa, é um casarão de dois pavimentos, onde vivem aproximadamente cem estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). (Ah, se essas paredes falassem). No Centro de Encontro Universitário (CEU), há um grande refeitório, uma cozinha e um vão que serve para ensaios de peças de teatro, espetáculos de dança, festas e para os próprios moradores estudarem.

São servidas as três refeições todos os dias. De segunda a sexta quem tem compromissos no Campus A.C. Simões não almoça na Residência Universitária. Da mesma forma, há aqueles que almoçam na casa, mas jantam na Ufal (como é chamado o campus A.C. Simões, a despeito de a própria residência também fazer parte da universidade).

O casarão da residência fica próximo ao Espaço Cultural, prédio onde funcionava a reitoria da instituição de ensino. Na realidade, ladeia com três ruas, sendo a Rua Sete de Setembro onde fica a entrada principal. Aí se lê gravada na parede: RESIDÊNCIA UNIVERSITÁRIA ALAGOANA.

Um pequeno jardim serve de entrada para a primeira sala, onde fica um vigilante e para onde moradores às vezes vão bater papo (alguns gastam várias horas de seu dia ali). Às vezes o vigilante, que alguns já chamaram de “dormilantes”, saem de seu posto para ir ao CEU pegar a refeição. Assim, um gatuno tem passe livre para adentrar na casa.

A Casa possui quartos onde dois, três ou quatro estudantes moram. Em quarto de menina, só mora menina. O mesmo vale para os meninos.

(Ouço passos de gente descendo as escadas em direção à recepção. Parece querer mostrar que está descendo. A discrição é atributo de poucos) (Meus dois companheiros de quarto agora dormem. Um é apaixonado por dentes e o outro está atolado de provas do curso de educação física) (Olho para o meu prato sujo de feijoada)

Os estudantes

Há pessoas cultas, filisteus, conservadoras, revolucionárias, patricinhas, atrizes, musicistas, idiotas, antipáticas, nervosas, inconvenientes, azuretadas, calmas, babacas, irresponsáveis. Há quem estude muito. Para isto utiliza-se a sala de estudos, local que se há algum tempo era abafado e sem privacidade, agora possui condicionador de ar e cabines para estudo individual.

A Casa abriga meninos e meninas. Para um país hipócrita como este, chama a atenção. Afinal de contas a minoria dos pais e mães permitem que suas filhinhas donzelas vão viver com machos entrando na idade adulta, cheios de amor pra dar. Na realidade, nem sei se os pais realmente permitem isto ou são forçados pelas condições econômicas, já que se não fosse pela Residência seus rebentos não teriam onde morar na capital. Acredito que a pressão socioeconômica fala mais alto.

Aqui estão estudantes de variados cursos superiores. Letras, Jornalismo, Relações Públicas, Filosofia, Serviço Social, Arquitetura, Odontologia, Pedagogia, Dança, Música, História, Economia, Geografia, Engenharia Química, Física, Meteorologia, Agronomia, Matemática, Administração, Educação Física, Direito, Farmácia, Nutrição,...

Curiosamente, não há sequer um estudante de Medicina. Em sua maioria, quem passa no vestibular de Medicina estudou nas melhores escolas e pode pagar por aulas extras, cursos e professores particulares ou de matérias isoladas. Para entrar na Residência é preciso mostrar que não se tem condições de morar em outro local. Todos os anos são selecionados alunos para entrar aqui. Quem faz o julgamento de quem merece são as assistentes sociais da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, órgão da máquina burocrática da Ufal.

Vez ou outra há queixas de objetos desaparecidos. Já sumiu um monitor de computador do meu quarto. Era de um estudante de Ciências Sociais, que ainda não terminara de pagar as prestações do produto. Já furtaram aparelho de celular de um garoto que estuda Serviço Social. Já sumiram baldes que servem para aparar a água do ar-condicionado. Mas os furtos não parecem ser privilégio da Residência. Quem vive no Brasil sabe disso.

De tempos em tempos surgem movimentos que agregam pessoas com afinidades. Assim nasceram o UVAS (grupo de homossexuais e simpatizantes), a Banda Penteios de Gato (para tocar forró e tomar cachaça) e o COCAL (Comunidade Cética de Alagoas).

Há homens homossexuais assumidos e escondidos. (Ah, se essas paredes falassem...). Se há lesbianismo não é tão expresso como no caso masculino. Há ateus, católicos – que vão à igreja todos os domingos -, evangélicos – inclusive da Igreja Universal do Reino de Deus –, agnósticos e bruxas.

Eu, que estudo Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, já estou morando no terceiro quarto. Já morei no 202, no 205 e agora vivo no 208.


Os conflitos

Em época de férias ou feriado esta casa se transforma em algo menos sufocante, visto que muita gente viaja para visitar seus familiares. Conviver não é tarefa fácil. Quartos individuais ou pelo menos quartos isolados acusticamente não cairiam mal. Para quem tem sono leve, espere ficar com muito sono e a horda baixar seu volume. Dia de quarta (dia de jogo na “Rede Bobo”) nem pense em dormir antes da meia-noite. Isso é luxo. Quem não se preocupa em invadir o espaço do outro entra no quarto do outro, deita em qualquer cama e ao ver o dono do colchão não dá satisfações.

Numa pequena sala, agora com condicionador de ar, há alguns computadores onde se pode olhar o Orkut e digitar trabalhos. Sítios eletrônicos pornográficos são constantemente acessados, danificando as máquinas com vírus. Certo rapaz foi acusado por uma moça de olhar agressivamente para ela e se masturbar.

Conviver não é uma tarefa fácil. A moça de Arquitetura estava dormindo tranquilamente quando uma das moradoras do quarto veio de uma festa com amigos e empezaram a degustar a Cannabis. Faço a pergunta: alguém quer morar aqui? (risos)

Um rapaz queria ter momentos de intimidade com uma moça não moradora da casa. Pediu ao companheiro de quarto para se ausentar. Ao que este se negou, sobrou violência literal. Resultado: ossos quebrados e uma assembléia na qual o agressor foi condenado a se ausentar da casa por trinta dias.

Dia desses soube de um rapaz, amigo de uma moradora, que, ao voltar de uma festa, urinou na cama de uma moça que estava dormindo...

Uma moça não quis aceitar outra no quarto porque ela nasceu com a pele escura...

A cada segundo, esta casa fervilha de pequenos, médios ou grandes conflitos. Também pudera. São 100 pessoas! Gente é assim mesmo. Cada um teve uma criação diferente, viveu em lugares diferentes, estudam cursos diferentes, tem sonhos diferentes.

11 comentários:

Rafael Medeiros | 15 de março de 2010 22:21

Lendo e viajando no tempo!

Anônimo | 17 de março de 2010 23:54

depois disso, duas palavras pra tu: bons tempos!!!

homero...

Agenor Costa | 18 de março de 2010 09:09

É Salomão a vida é dura e agente chega lá. Aprendi muito nos momentos que vivi na RUA.
Sorte a Todos.

Anônimo | 10 de maio de 2010 21:40

Cícero Estevam, sou Médico Cardiologista, moro em Aracaju-SE, sou ex-morador da rua (1996-1999)e orgulho-me desse periodo que convivi com vocês, das dificuldades e das conquistas. Um grande abraço a todos e viva cada momento intensamente. Gostaria que tivesse encontros dos ex-residentes.

sayonara | 25 de julho de 2010 17:21

Ei vcs só aceitam estudantes da UFAL passei pelo enem e gostaria de morar aí ?? como posso proceder??

Edilene Barbosa | 27 de maio de 2011 10:26

Amei o texto e fiquei emocionada com os comentários. Nós temos sim, alguns conflitos e muitos problemas na casa, mas como o texto diz e eu aproveito para fazer uma ressalva, morar na R.U.A não é uma opção é uma necessidade, mas é também muito digno e prazeroso, aqui encontra-se fortes e diferentes pensamentos que acabam gerando conflitos, no entanto, a vida é assim em qualquer lugar. Aqui eu fiz amigos consegui coisas e adquiri diferentes conhecimentos, que nenhum outro lugar me proporcionaria.
Alguns idiotas falam mal da Residência, mas nós somos estudantes muito mais fortes do que qualquer outro: deixamos nossos pais, irmãos e amigos, temos a tristeza de chegar em casa no fim da tarde e não encontrar ninguém que diga - MEU(a) FILHO(a) VOCÊ DEMOROU, EU ESTAVA PREOCUPADO(a)! Mas mesmo assim, nós conseguimos terminar o nosso curso e ser bom tanto quanto qualquer outro.

Edilene Barbosa - Residente desde 2009, Curso: Teatro Licenciatura

Jadson Wilmot | 27 de setembro de 2011 16:48

Um bom texto companheiro, porém, bem pessoal. Não sei se foi essa a sua intenção, mais quando se escreve algo relacionado ao coletivo, deve-se levar em conta a visão das outras pessoas, assim como também, seus porquês, suas realidades, seu íntimo. Senti falta disso. Muitas problemáticas de fato acontecem é bem comum; e é na busca de melhoras que nós estudantes lutamos enquanto Residentes Universitários de Alagoas para que o direito de cada um possa ser respeitado.

Muito mudou desde Dezembro de 2010, data em que foi escrito esse texto pelo companheiro Salomão. Possivelmente os encontros de casa de estudantes que acontecem todos os anos, venham despertando um senso crítico mais concreto em alguns moradores. Sem falar do processo de saída e entrada de pessoas que também tem um forte impacto nesse ponto, melhor dizendo, temos uma outra realidade, não completa, mais bem diferente da que foi exposta acima; estamos até nos organizando para trazer o próximo ENCONTRO NORTE/NORDESTE DE CASA DE ESTUDANTE-ENNECE para Alagoas fato que desde 2003 não acontece. Finalizando, quero dizer que vários são os pontos positivos dessa casa, pena que poucos enchergam ou não querem enchergar.

Sou Jadson Wilmot, estudante de Psicologia, Ativista do movimento estudantil da UFAL e do movimento nacional de casas de estudantes. Sou morador da RUA desde 2009/2 e muito tenho aprendido, mais muito mesmo com cada pessoa que entra nessa casa.
Paz!

Anônimo | 2 de março de 2012 21:28

haaai muitas emoções aii, pena q antes eu soh ia com meu ex q eh residente dai;

Greyce | 1 de maio de 2012 23:39
Este comentário foi removido pelo autor.
jullymaria | 25 de julho de 2012 20:22

Juliana Acioli,sou ex-residente(1992-1996)sou Pedagoga e resido em SÃO PAULO, pra mim foram os anos mais entusiasticos da minha vida,tenho muito saudades daí, foram 4 anos de muita experiência, aprendi a conviver com todo tipo de pessoa,amadureci e respeitei suas opiniões. Aproveitem o máximo que puderem com certeza levarão uma bagagem cheia para a nova caminhada.
Sorte a todos vcs!!!!!!!!!!!!!

luiz bispo do amaral filho luiz | 13 de janeiro de 2014 20:43

ola galera, adorei o post. bom eu passei na ufal pelo sisu/enem e ja vou final de semana(dia 17/01/14) ai fazer a inscrição na universidaede. mas p estudar na ufal preciso de assistencia moradia e gostaria de saber como faço para conceguir? onde e como eu me inscrevo para o processo de seleção para tal?? aguardo respostas e agradeço desde ja.

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